7 de jan de 2014

Claralline e outras histórias

- Sabe Doutor, o mundo vai acabar. E não vai demorar muito.
Fiquei alguns segundos tentando entender o contexto da afirmativa. Afinal tinha acabado de entrar no taxi, cumprimentado o condutor e falado o destino. Depois de tantas profecias perdidas, enlouquecimento coletivo só poderia imaginar que o “Seu Zé” estava viajando. Não literalmente, claro.
Mas não podia deixar passar a oportunidade. Gosto da cultura taxista e sempre tem uma tirada interessante.  Tomei coragem e perguntei:
- “Seu Zé”, porque o senhor fala isto? O mundo é tão bonito.
- É simples.  Depois que as mulheres saíram de casa para trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro, tudo desmoronou. Os filhos tem que ficar com as babás. Quando elas retornam do trabalho estão cansadas. Nem querem saber do marido ou dos filhos.
Se eu tive vontade de dar boas risadas? Claro. Precisei respirar muito para me conter e continuar aquela conversa. Se considerarmos que o mundo é cheio de “culturas” sobre as mulheres, em algum destes pode fazer sentido.
Mas o “Seu Zé” não parece ser alguém “derivado“ de uma cultura destas.
Notei que a Claralline começou a ficar incomodada com a conversa.  Desculpas, me esqueci de falar que uma colega de trabalho, a Claralline, também estava no taxi. Ela pegou o celular e começou a digitar umas coisas e ficou corada.
- “Seu Zé”, o trabalho das mulheres é bom para a família, para ajudar nas despesas de casa, uma forma de liberdade. Atualmente é quase uma exigência que as mulheres trabalhem fora.
- Por isto digo que o mundo vai acabar. Lugar de mulher é em casa com os filhos.
A Claralline já estava até tremendo. Acredito que era o ar condicionado do taxi.
Chegamos ao destino. Ainda poderíamos continuar o assunto por muito tempo, mas missão cumprida. Assinei o voucher da corrida.
Antes de entregá-lo para o “Seu Zé”, perguntei.
- “Seu Zé”, o senhor é casado?
- Sou sim. Tenho 3 filhos.  Minha mulher trabalha no Banco do Brasil.
A conversa encerrou ali. Realmente o mundo pode acabar, mas vai demorar muito.
Matosinhos 01.01.2014

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